Pontuação e nuanças
Luis Fernando Verissimo
Dizem que um dos problemas dos pandas, aqueles simpáticos semi-ursos preto-e-brancos chineses que estariam desaparecendo, é que eles são muito depressivos. Além de todas as outras razões para estarem em vias de extinção há a sua aparente convicção de que não vale a pena continuar vivendo. Alguém devia lhes contar, para aumentar sua auto-estima, que o livro mais vendido na Inglaterra hoje deve seu título a uma piada de panda. E não é um best seller comum - é um best seller sobre pontuação, coisa de inglês. O título é Eats, Shoots and Leaves e se baseia na história do panda que, depois de comer num restaurante, dá um tiro para o ar e sai. Mais tarde, explicando seu estranho comportamento na delegacia, mostra um livro sobre o mundo animal em que ele é descrito como um mamífero natural da China que "eats shoots and leaves" - come brotos e folhas - uma frase que uma vírgula mal posta, depois de "eats", transforma em "come, dá um tiro e sai". O panda arruaceiro só estaria sendo fiel a um erro de revisão a seu respeito.
Mas o leitor Roberto Elisabetsky, que me chamou a atenção para o livro, todo ele sobre pontuação correta e incorreta e os resultados hilariantes ou desastrosos de uma virgula indevida ou um acento extemporâneo, gostou mesmo foi da dedicatória da sua autora, Lynne Truss: "À memória dos gráficos bolcheviques de São Petersburgo que, em 1905, exigiram serem pagos pelos sinais de pontuação o mesmo que eram pagos pelas letras, e assim precipitaram diretamente a primeira Revolução Russa." Uma greve de linotipistas foi um dos fatores instigadores do levante de 1905, mas Elisabetsky não sabe até que ponto a dedicatória é correta e se já se usava "bolcheviques" em 1905 (já, o termo é de 1903). Mas acha fascinante imaginar que nas origens da revolução estão parênteses e pontos-e-vírgulas mal pagos.
No Brasil, poderia se fazer um tratado sobre a submissão cultural baseado só no nosso uso do apóstrofo, aquela vírgula invertida que americaniza tudo, até recauchutadora (juro que já vi "conserta-se pneu's"). Mas nem a vírgula que altera tão radicalmente o caráter de um panda ou dá um toque de classe a qualquer trailer -- como o que eu pensei ter um dia para vender "hot dog's" e "xi's", e que se chamaria "Apóstrofo's" - afeta tanto nossas vidas quanto a má tradução, ou a nuance linguística não captada.
Qual foi mesmo aquele presidente americano em visita a um país asiático que, num discurso de fim de banquete, achou que estava saudando a paz entre os povos e estava sugerindo uma ligação ilícita da mãe do anfitrião com um porco, ou coisa parecida, porque errou a entonação? Erros assim podem ter consequências graves. Dizem que foi a interpretação errada, em japonês, de uma expressão americana num telegrama diplomático que precipitou o ataque a Pearl Harbor. Entre as muitas razões para a guerra no Pacífico, estava essa: uma nuança mal-entendida.
Mas essas ligações de efeitos sérios com causas banais podem ser exageradas. Sigmund Freud conta que estava num trem entre a Itália e a Áustria, conversando com um desconhecido, e perguntou se ele por acaso também estivera em Orvieto e vira os famosos afrescos pintados na catedral por... E não conseguiu se lembrar do nome do pintor, Luca Signorelli. Depois, tentando racionalizar o fato de ter bloqueado o nome do autor das pinturas sobre o fim do mundo que o tinham impressionado tanto, Freud concluiu que se esquecera do pintor justamente porque queria esquecer o que tinha visto, e daí partiu para suas teorias sobre o subconsciente e suas defesas. Assim, o nascimento da psicanálise se deve, na verdade, a um pintor italiano do século 16.
Talvez não uma verdade, mas certamente um bom achado. Como a hipótese de que o século 20 teria sido outro se apenas os patrões de São Petersburgo tivessem concordado em pagar aos gráficos, também, os parênteses e os pontos-e-vírgulas. E as reticências...
Domingo, 20 de junho de 2004.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.